Capítulo 1: Como vai, Babalú?
“Ô Ana, não me meta mais nessas coisas.”
“Corre, João, corre”, gritava Ana, após conseguir pular o muro daquele local junto com seu fiel companheiro e marido. Assim que viraram a rua, dezenas de mulheres, garçons e anões estavam correndo atrás deles.
A situação era um pouco inusitada, mas tudo começou há alguns dias quando Cecília descobriu uma informação extremamente relevante.
“Bom dia, dona Maria. Vou ao seu Zé, a senhora quer alguma coisa?”
“Bom dia, minha filha. Me traga um beiju.”
“Pode deixar.”
Ana iniciou seu primeiro passo em direção à mercearia, porém, antes de completar, enxergou Edevaldo passando na rua de mãos dadas com uma mulher que não era sua esposa. A jovem interrompeu o passo e se virou completamente para dona Maria.
“Aquele era Edevaldo?” questionou Ana Cecília, com um estranhamento evidente em seu rosto.
“Chegue mais perto.”
Ana se aproximou, olhou para os lados da rua e cochichou:
“Pois, desembuche.”
“Exatamente, vivia na igreja, agora parece que largou Darlene e tá com essa zinha aí.”
“Menina, como é que eu não fiquei sabendo de uma conversa dessas?”
“Ficou dentro de casa enfurnada esses dias, tá perdendo é coisa. Parece que roubaram um tal de ingrediente de Cabeluda.”
“Ave-Maria, roubaram? Mas ela não tem mais desse ingrediente?”
“Guardava a sete chaves. Se fosse fácil pôr outro no lugar, não estava esse alvoroço todo.”
“Se bem que um ingrediente desses, até eu queria. Vem gente de tudo quanto é canto pra esse brega.”
Após encerrar a rápida conversa, Ana Cecília seguiu para a pequena mercearia, encucada com a informação que havia acabado de receber.
“Oi, seu Zé. Me dê cinco reais de pães e um saco de beiju.”
A mercearia era movimentada naquele horário, ponto de encontro dos moradores. Mas uma figura chamou atenção de Ana.
“Babalú, quanto tempo?”
“Oi, Ana. Não é, menina, quanto tempo. Mas é a correria, a loja sempre lotada.”
“É verdade, esses dias passei em frente e vi o movimento mais fraco. Mas deve ser o período do ano.”
Babalú, com suas sacolas na mão, suspirou e respondeu:
“Infelizmente tem caído mesmo, mas é como tu disse, é coisa de período.”
Ana não teria mais o que comprar, porém simulou estar olhando os potes de doces do estabelecimento para conseguir mais tempo. Quando Babalú finalizou suas compras, a jovem observou, de canto de olho, que ela se retirava, voltou-se para seu Zé:
“O senhor tá sabendo?”
“Como não? Quanta pouca vergonha, querendo que um lugar desse ande cheio.”
A jovem recostou seu braço no balcão e, com o corpo expressando acomodação, pronunciou:
“Pois, também acho, gosto muito de Babalú, sei que ela trabalha na loja de Cabeluda e é estudada. Mas esses produtos só estavam trazendo gente pervertida para Tororó.”
Ana emitia opiniões com que não necessariamente concordava, mas em favor de extrair o máximo do falatório, a jovem não media esforços. Dona Marilene, que estava chegando para fazer suas compras observava a conversa de Ana e se achegou comentando:
“É uma pouca vergonha, menina. Mas essa tal de mistura parece que era boa viu. O que não tem de casal se separando, homem briguento dentro de casa, e kenga tomando macho dos outros, não tá escrito. Tororó vai de cabeça abaixo se Cabeluda fechar, metade da cidade tava usando.”
Ana olhou para Marilene, com uma expressão de quem tinha algo importante para contar.
“Inclusive, hoje vi Edevaldo de mãos dadas com uma Kenga de Cabeluda.”
Marilene colocou a mão na boca.
“Edevaldo? Que vivia na igreja?”
“Exatamente.”
Em pouco tempo havia uma pequena aglomeração na mercearia, as pessoas que chegavam, se aconchegavam para falar sobre o assunto. Enquanto isso, seu Zé aproveitava para vender cafezinho e biscoitos.
“Ave-maria, a orelha chega tá coçando”, resmungava Ana, durante sua volta para casa. Mas a jovem decidiu modificar o seu caminho naquele dia. Caminhar até o estabelecimento de Cabeluda adicionaria quase meia hora ao percurso, mas sem pestanejar seguiu.
Uma loja de produtos naturais era o principal atrativo do local, bem decorada, em tons esverdeados, denotava prestígio através de seu acabamento. Ao lado ficava o estabelecimento que funcionava como bar e divertimento adulto.
“Ana, você aqui?”
“Oi, Babalú, uma surpresa, não é, menina? Mas estava conversando com o pessoal hoje, e ouvi dizer que vocês têm uns óleos que são uma loucura.”
“Querendo testar com o marido?”
“Com certeza, dar uma diferenciada.”
“Para falar a verdade, estamos com os últimos frascos. Dona Cabeluda não tem feito muito ultimamente.”
“Oxente, por quê?”
“A idade, sabe como é. Mas vou vender para você um dos últimos que temos aqui.”
Enquanto experimentava o óleo, passando uma pequena quantidade na pele, Ana olhava os detalhes da loja.
“Babalú, vem cá. É verdade o que tão dizendo por aí?”
Babalú parou por alguns segundos, olhou para Ana e suspirou.
“Infelizmente.”
Ana levantou a parte móvel da bancada da loja e entrou para a parte do atendimento, local onde havia uma porta aos fundos.
“Vocês não têm ideia de quem foi? Vamos atrás desse ingrediente.”
“Olha, Ana, é muito complicado. Se soubéssemos já teríamos ido atrás. É melhor você ficar fora disso.”
Ana, enquanto conversava, ia se direcionando para a porta que estava atrás do local de atendimento. Babalú conseguiu perceber e se aproximou. Mas a Ana colocou a mão na porta.
“Preciso ter uma conversinha com dona Cabeluda, ela está?”
Ana fez o questionamento, porém, antes que Babalú pudesse responder, ela abriu a porta.
“Dona Cabeluda está?”
“Caramba, Ana. Já lhe disse que esse não é assunto para você se meter.” Retrucou Babalú, com um tom de voz mais alto e demonstrando irritação.
Atrás da loja havia uma pequena fábrica artesanal dos produtos que eram vendidos no local. Comumente movimentada, naquele dia nada estava funcionando, havia duas mulheres com aventais brancos, e mais ao fundo uma senhora sentada.
“Dona Cabeluda, queria trocar dois dedinhos de conversa com a senhora.”
Cabeluda olhou para Babalú, incomodada pela invasão.
“Seu marido sabe que está aqui dentro?”
“Não sou nenhuma vidente, mas posso tentar ajudar a senhora a recuperar esse tal ingrediente.”
“Seu marido por acaso sabe que a mulher dele veio ao brega? Que está de conversa com uma travesti? Babalú, tira essa moça daqui agora, não quero saber de homem matando mulher aqui dentro.”
Com a negativa, Ana olhou para Babalú, que se demonstrava irritada.
“Me deixe ajudar.”
“Vamos, Ana. Saia, por favor.”
Ana abaixou sua cabeça e caminhou para fora do estabelecimento. Pegou o óleo, ligou para João que naquele dia chegaria mais cedo do trabalho e pediu que a buscasse.
“Onde, Ana? Em Cabeluda, o brega?”
“Exato, João, depois te explico. Me busca aqui.”
A jovem esperou algum tempo até o marido buscá-la. João desceu do carro, deu um beijo na testa de Ana, e acenou para Babalú, que respondeu com um balançar tímido de cabeça.
Capítulo 2: Ana é o último recurso.
Na volta para casa a jovem se manteve calada, até que João decidiu quebrar o silêncio.
“Está tudo bem? O que aconteceu para você estar desse jeito?”
“Por que chegou mais tarde em casa ontem?” De forma seca, devolveu o questionamento de seu marido com o que aparentemente era uma desconfiança.
“Peguei um trânsito na Nordestina.”
“Como é que a Nordestina engarrafou?”
“Parece que teve algum evento, uma festa, não sei. Mas a rua estava intransitável, por isso atrasei.”
Ana ficou quieta, introspectiva durante parte do dia. João preparou o almoço, mas ao se sentar na mesa, seu incômodo chegou ao limite.
“Aconteceu alguma coisa que não quer me falar?”
Antes de levar a primeira colher à boca, a jovem suspirou e baixou sua cabeça.
“Difícil explicar, João. Me acha uma pessoa incômoda?”
“Acho você perfeita”, respondeu João, engasgando o alimento.
“João, fala a verdade. Hoje fui à Cabeluda para tentar ajudar, e me trataram muito mal.”
“Às vezes, você descobre coisas demais e fala demais também. Acho que isso incomoda as pessoas.”
A campainha da casa tocou, interrompendo o diálogo do casal. João se levantou, mas, quando abriu a porta, se deparou com Babalú e Cabeluda.
“Boa tarde, João. Ana está?”
João foi até sua companheira e informou sobre as ilustres visitas. As visitas se sentaram na sala, Ana e João foram terminar o almoço no sofá, para que as visitas não tivessem que esperar.
“Servidos?”
“Não, muito obrigada, já almoçamos. Viemos para conversar mesmo.”
Ao acabarem o almoço, João se retirou.
“Quero pedir desculpas, minha filha. Sei que você é uma menina muito curiosa, mas nunca fez mal a ninguém. E Babalú me disse que seu marido nem sequer perguntou o que fazia naquele lugar.”
“Que isso, dona Cabeluda. Eu que peço desculpas, não deveria ter entrado assim.”
“Não importa, minha jovem. Não tinha o direito de tratar alguém mal daquele jeito. Mas não vim aqui só por isso. Tororó toda sabe que não há nó cego que você não desate, e por isso fiquei com medo de você em meu estabelecimento.”
“Imagino, dona Cabeluda. Acho que a senhora desconfia de quem é, e deve ser alguém muito próximo.”
“Como sabe?”
“Porque, se não fosse alguém próximo, a senhora não estaria com tanto de que eu descubrisse o culpado. Mas não sou nenhuma vidente, apenas vou juntando os cacos para montar de volta o pote. Porém, se quer que eu desate esse nó, precisa me contar tudo. Se a senhora tem algum desafeto, se algum funcionário saiu recentemente de seu estabelecimento, principalmente se abriu outro estabelecimento, e de quem a senhora desconfia.”
“Às vezes, penso que pode ter sido obra de Lisinha.”
“Quem é Lisinha?”
“Não lembra de Lisinha, não é, minha jovem? Atendia em minha casa, muito conhecida em Tororó, mas você era muito mocinha.”
Babalú interrompeu dona Cabeluda: “ mas faz mais de 30 anos que as duas brigaram e mais de 15 que ela não pisa em Tororó.”
“Maldita, invejosa. Mas eu entendo que estou tentando fugir da minha realidade, é porque seria melhor que fosse ela. Mocinha, vou te dar todos os cacos. Esse ingrediente foi deixado por minha mãe. Ela era uma grande curandeira aqui em Tororó. Estava guardado em uma pequena caixa de madeira, revestida por couro preto e com um cálice desenhado. Dia 21, um domingo, entrei no meu quarto e quando abri a gaveta do meu armário, o meu ingrediente não estava mais lá. No mesmo dia, Babalú me trouxe uma carta de Nathália, a minha dançarina mais linda de todas. Nathália havia sumido nesse fim de semana, após me pedir dinheiro emprestado, mas dessa vez eu não lhe dei. Na carta ela dizia que iria buscar melhoras, e que eu iria escutar falar dela. Tenho certeza, não sei como, mas foi ela que roubou.
Babalú tomou a frente para tentar ajudar Ana.
“Nathália é uma que nos traz muitas desconfianças, mas ninguém tinha acesso à casa. Precisaria passar pela porta principal, pela porta do quarto e do armário, todas com trancas e não havia sinal de arrombamento.”
Babalú olhou para dona Cabeluda, balançou a cabeça, como se estivesse pedindo para que ela falasse mais. Dona Cabeluda suspirou profundamente, seu semblante decai, mas ela começou a falar.
“Não gostaria de pensar isso. Mas tenho uma neta que tem vergonha de mim e de uns tempos para cá vive me pedindo dinheiro. Há pouco tempo ela abriu um pequeno negócio em Feira de Santana com o marido, um restaurante. No período em que o ingrediente sumiu, ela e o marido vieram a Tororó e pela primeira vez dormiram aqui, entre os dias 17 e 21. Ela me pediu uma grande quantia, mas desta vez eu neguei, estava cansada de pessoas desonestas me tirando tudo. Não tem controle, gasta tudo. Também foram os únicos que tiveram acesso às minhas chaves, mas não no dia do sumiço, quando o ingrediente sumiu, as chaves estavam comigo.
Ana Cecília a interrompeu, fazendo um questionamento:
“A senhora deixou a chave com eles em qual dia e horário?”
“Dia 19, na sexta-feira, durante a noite, minha filha. Nem mesmo chegaram a sair de casa. A minha residência fica nos fundos da casa de shows Cabeluda.”
“Tudo bem, pode continuar.”
“Essa foi a noite em que Nathália se chateou comigo. Ao fecharmos o estabelecimento, fui para minha casa. Peguei de volta as chaves na mão de Lúcia. No sábado utilizei novamente o ingrediente, à noite teríamos um show ao vivo com banda, esperávamos muita gente. Fui para a cozinha do meu estabelecimento e levei o ingrediente para temperar nossos óleos corporais, nossas bebidas e nossa comida. Também abençoei as meninas para que nenhum mal as atingisse.”
“Mas, dona Cabeluda, a senhora coloca esse ingrediente na comida? Ele precisa estar com a senhora, como utiliza?”
“O ingrediente é o que me conecta, é a minha ponte com a minha espiritualidade. Não há um jeito certo de usar.”
Ana percebeu que não conseguiria extrair mais informações, e deixou que Cabeluda continuasse.
“Nesse sábado tive uma grande surpresa. Minha neta Lúcia e o marido Sérgio me falaram que iriam assistir ao show. Fiquei tão feliz, sempre religiosos, acho que pensavam que veriam safadezas em meu salão. Mas a casa é respeitosa, o show é para todos, somente quem quisesse alguma coisa com as meninas, poderia conversar e sair para minha pousada ao lado. Mas o meu salão é para todos. Lúcia e Sérgio ficaram comigo até o final, apenas destaquei a chave do quarto deles quando chegamos em casa. No dia seguinte, no domingo, eles foram para Feira de Santana ainda pela manhã. Era um domingo, e o show do sábado esgotou o nosso estoque, vendemos tudo. Quando destranquei o meu armário para pegar o meu ingrediente, tive a triste surpresa, não estava mais lá.”
“Então a senhora imagina que poderia ter sido ela?”
“Essa é a questão, minha jovem. O ingrediente está sempre comigo, quando não está, fica dentro do meu quarto, trancado. Não há qualquer sinal de arrombamento em minha casa. Eu não sei como pode ter sido ela, durante o dia no sábado usei o ingrediente, e as chaves estiveram comigo o tempo inteiro, à noite, saíram juntos comigo para o show, e deixei tudo trancado. Não sei mais o que fazer, Cabeluda não vai resistir mais um mês sem seus produtos.”
“Não sabemos ainda, Nathália é uma grande suspeita. A senhora não precisa fechar as portas. Mesmo sem o ingrediente pode continuar. Inclusive, eu posso criar um site da sua casa, trabalho com isso, sou engenheira.”
Cabeluda colocou a mão no rosto de Ana, sorrindo, como quem entendia o entusiasmo da jovem em querer ajudar.
“Olha, mocinha. Se a minha própria neta me roubou, meu desgosto será tão grande, que prefiro não continuar. Mas eu preciso saber da verdade, mesmo sendo tão dura.”
“Dona Cabeluda, muita gente depende da senhora. A Bahia toda vinha para comprar os óleos da senhora, consumir em seu restaurante, e esse negócio poderia crescer muito mais. A senhora não pode desistir assim.”
Ana pegou uma folha de papel e caneta, e pediu para que dona Cabeluda confirmasse:
“Na sexta, dia 19, a senhora deixou as chaves com Lúcia e o marido durante a noite, e de noite mesmo pegou de volta. No sábado usou o ingrediente, e guardou. Domingo Lúcia foi embora, mas quando a senhora buscou pelo ingrediente, não estava mais lá. Além de ter recebido a carta de Nathália. Falta alguma coisa, dona Cabeluda?”
Cabeluda se levantou com ajuda de Babalú, olhou para Ana e acenou confirmando que estava tudo nas anotações de Ana.
“Dona Cabeluda, mais uma coisinha. A senhora não pode falar o que é esse tal ingrediente?”
Cabeluda sorriu, como quem sabia que em algum momento esta pergunta viria.
“Está dentro de uma caixa de couro com um cálice desenhado. Acredito que talvez nunca mais o verei, mas se por acaso encontrar, peço que não abra, apenas me traga de volta. Pode futricar o que quiser.”
Ana apenas acenou com a cabeça, confirmando o pedido de dona Cabeluda.
“Babalú.”
“Oi, Ana.”
“Faça uma ligação para Nathália, você ou quem tiver mais intimidade e tente descobrir onde está trabalhando. Sobre a neta, me informe o nome do restaurante dela.”
Algumas horas depois, após receber a ligação de Babalú, poucas vezes João viu sua esposa tão triste com algo.
“O que te deixou assim?”
“Babalú me disse que Nathália não a atendeu. Pesquisei pelo restaurante de Lúcia, a neta de Cabeluda, e parece ser uma grande novidade na cidade. Muitas avaliações boas, e fica lotado aos finais de semana. Vamos tirar essa história a limpo, João.”
“Mas Ana, pelo que você me contou, não tinha como ter sido a neta.”
“João, foram os únicos que tiveram as chaves em mãos. Dona Cabeluda disse que não saíram na sexta, enquanto estavam em casa, com as chaves. Talvez realmente Lúcia não tenha saído, mas será que Sérgio não saiu?”
“Realmente, Ana. Ela não estaria preocupada em vigiar os dois o tempo inteiro. É bem provável que ele tenha saído para conseguir uma cópia das chaves.”
“Exato, João. Cabeluda falou que buscava o ingrediente sempre que precisava de mais produtos. Amanhã iremos à Feira de Santana.”
Capítulo 3: Precisamos ir a Feira de Santana.
Ana costumava ficar ansiosa com situações tão inusitadas. Mas aquele caso despertava cada fio de cabelo de sua curiosidade. No dia seguinte, próximo ao anoitecer, Ana tratou de lembrar do compromisso que tinha. João nunca negou a curiosidade de sua esposa, mas seus movimentos para esclarecer cada boato nunca passaram de boas conversas pela vizinhança, ele não acreditou que iriam à Feira de Santana.
“Caramba, Ana. É sério que você quer ir para Feira? Como vamos descobrir alguma coisa ou recuperar esse ingrediente indo ao restaurante dela?”
“Se quiser ficar, então, fique, eu vou sozinha mesmo.”
Irritada, cerrou os punhos e saiu em direção ao seu carro.
“Você vai dirigir?” Questionou o rapaz, incrédulo.
João respirou fundo e correu para o quarto. Dentro de alguns minutos, o rapaz estava ao lado do carro, Ana olhou para ele, com as mãos no volante e suando frio somente por pensar em dirigir. Seu marido estava com a bolsa de remédios nas mãos, água e seus documentos.
“Estava indo buscar”, falou Ana, incomodada.
“Eu sei, mas já que vou com você, trouxe logo.”
A jovem tentou esconder, mas saber que não precisaria dirigir lhe gerou um grande alívio. Chegando à cidade de Feira de Santana, a mudança no ritmo era evidente, o caos no trânsito era uma de suas principais marcas, a cidade parecia ter mais veículos do que conseguia comportar. Ainda dentro do carro, na rua do restaurante, procuravam pelo estabelecimento, até que, de longe, conseguiram ver a placa. O local era pequeno, parecia ser uma casa adaptada. O hall estava aberto, e as cadeiras ocupavam a calçada.
“Está lotado, João.”
“Verdade, Ana. Abriu há pouco tempo e já tem esse movimento.”
Logo uma garçonete se aproximou.
“Boa noite, já sabem o pedido?”
Ana pediu uma moqueca de camarão, prato que seria suficiente para os dois.
“Lúcia está?”
“Sim, senhora. Ela está na cozinha.”
“Entendi, então ela é a responsável. Não tem ninguém ajudando na cozinha, não?”
“Tem sim, mas, quando dona Lúcia se tranca na cozinha, ninguém chega perto.”
A espera durou por um tempo, enquanto o casal observava o espaço. Quando a comida chegou à mesa, ao levarem as primeiras colheradas à boca, perceberam que a comida era muito boa. Ana e João se olhavam enquanto comiam. Ao finalizarem, Ana chamou a garçonete.
“Como é seu nome?”
“Marcela.”
“Marcela, a comida estava maravilhosa, queria falar com a dona.”
Se pondo de pé, Ana já estava se direcionando à cozinha. Marcela tentou falar com ela.
“É que a dona Lúcia não gosta muito de pessoas na cozinha.”
“É Lúcia de Tororó? Filha de Luciene? Pode deixar que ela vai gostar de me receber.”
Ana seguiu sua caminhada, mas assim que abriu a porta, percebeu que Lúcia tomou um pequeno susto. A mulher deixou o fogão e fechou uma pequena caixa.
“Mas Marcela, não falei que não gosto de gente na cozinha?”
“Lúcia, não tá lembrada?”
Quando a cozinheira prestou atenção em Ana, logo a reconheceu.
“Ana, meu Deus dos céus. Quanto tempo? Não abraço porque estou toda suja.”
“Vim desejar sucesso, está maravilhosa a sua comida.”
“Obrigada, é de família. Muitas receitas de minha vó.”
“Imagino, muitas coisas de sua vó.”
“Volte sempre, se quiser me fazer uma visita, as portas estão abertas. Moro aqui perto, nesse bairro.”
Ana e João se retiraram do restaurante. Mas quando entraram no carro, a jovem anunciou para o seu marido que ainda não retornariam para casa.
“O que você tá querendo fazer?”
“Esperar ela sair, João. Se Lúcia sair com essa bolsa, deve estar com o ingrediente. Tomou um susto assim que entrei na cozinha e foi logo guardar uma caixa.”
Os dois deram algumas voltas na cidade para matar o tempo, era por volta das 22 horas, e pararam na esquina do restaurante. A espera foi longa, mas o estabelecimento já não tinha clientes, e as funcionárias estavam limpando o local. Lúcia foi a última a sair do estabelecimento, fechou as portas e seguiu caminhando para sua casa.
“Vamos atrás, João.”
“Espera aí, Ana. E vamos fazer o quê?”
“Dá uma volta no quarteirão pela rua de trás e para na esquina.”
Sem entender o que ela queria, João ligou o carro, preocupado deu, a volta.
“Quando eu descer do carro, você volta para a esquina do restaurante.”
“Ana, pelo amor de Deus, olha o que vai fazer.”
“Nada demais, homem, oxe.”
Ana desceu na esquina da rua, sem que Lúcia pudesse vê-la. Ela ficou esperando, quando Lúcia estava passando próximo a ela, a jovem saiu correndo em sua direção e a acertou em cheio. Ana esbarrou com tamanha força que arremessou a mulher no chão, ao cair, segurou em sua bolsa como se estivesse querendo evitar a queda.
A bolsa caiu separada de Lúcia e os pertences que estavam dentro da bolsa se espalharam pelo chão. Dentre os itens da bolsa, a caixa de que Ana suspeitava se abriu, espalhando notas de dinheiro pelo chão.
“O que é isso, está louca?” falou Lúcia, desnorteada, tentando se levantar, preocupada com seu dinheiro.
“Lúcia, sou eu, Ana. Achei que tinha alguém me perseguindo, por isso estava correndo.”
Ana se levantou e ajudou Lúcia a guardar suas coisas, enquanto as duas recolhiam o dinheiro.
“Meu Deus, Ana. Eu também, juro que tinha um carro atrás de mim.”
“Quer que eu acompanhe você até em casa? Vou ligar para o meu marido vir me buscar.”
“Olha, vou aceitar sim a companhia. As ruas estão tão perigosas.”
Ana levou Lúcia até a casa, a algumas ruas do local. Ao chegarem, Lúcia perguntou se ela não queria entrar, para que pudesse esperar seu marido. Ana havia enviado uma mensagem para João, informando para que levasse pelo menos meia hora para chegar após sua ligação. Na frente da mulher, Ana ligou para João.
“Amor, vou te enviar o endereço, assim que estiver livre, você me busca.”
Ao finalizar a ligação, percebeu que Lúcia estava preocupada e logo buscou guardar a bolsa com o dinheiro.
“Lúcia, por que leva tanto dinheiro em espécie assim?”
“Minha vó que te mandou, né? Deve tá achando que eu roubei essa porcaria de ingrediente.”
“Olha, acho que ficou fácil perceber”, respondeu Ana, desconcertada.
“Esse dinheiro é para pagar um agiota. Desde que Sérgio, meu marido, se viciou em jogo de apostas online, nossa família está se acabando. Fui a Tororó pedir dinheiro a minha vó para pagar uma de suas dívidas, não para roubar essa merda.”
As duas escutaram a porta se abrindo, era o marido de Lúcia.
“Por que demorou hoje?”
“A Nordestina estava engarrafada, impossível passar por aquela rua.” Respondeu o homem.
“É verdade, meu marido também tentou passar por ela ontem, impossível.”
Assim que chegou, Ana acenou para João, que ficou dentro do carro, e pediu que ele esperasse. A jovem abaixou o tom de voz.
“Lúcia, você deve estar passando por momentos difíceis. Já enfrentei crises financeiras, acaba que até a relação marido e mulher não tínhamos mais naquele momento.”
Lúcia abaixou o rosto.
“Ele passa meses sem me procurar. Às vezes, acho que deve me estar me traindo.”
“Mas como te falei, a falta de dinheiro deixa qualquer casal distante.”
A jovem se despediu, colocando-se à disposição para que pudesse ser uma escuta para Lúcia.
“E aí, amor, o que descobriu?”
“Acho que foi ela, João.” Respondeu ao seu marido, contando os detalhes da conversa que teve com Lúcia "mas tem algo que não está batendo, consegui olhar bem a cozinha, não vi nada, estava tudo muito fácil de observar. Apenas ela guardando a caixa, que realmente era a do dinheiro.”
Enquanto dirigia, João tentava pensar em alternativas para ajudar sua esposa. Ana ficou calada.
Capítulo 4: Como não pensamos nisso antes?
“Amor”, chamou por Ana.
“Oi”, respondeu a jovem, transparecendo desilusão.
“Acho que fomos bem burros”, nesse momento Ana despertou. A fala de João demonstrava que ele pensou em algo, que ainda não tinha se esclarecido em sua mente.
“Diga, João. Deixamos passar o quê?”
“Não achamos que tiraram uma cópia das chaves?”
“Sim”, apreensiva respondeu a jovem.
“Tororó só tem um chaveiro, por que não fomos conferir isso antes?”
“Verdade. Seu Toinho é cachaceiro, só fecha na boca da noite”, Ana falava com vivacidade “caramba, devíamos ter ido logo ao seu Toinho. Lúcia ele conhece, mas Sérgio não. Vou pedir uma foto dele para Babalú e amanhã tiro a limpo”.
No dia seguinte, Ana se levantou pensando em conseguir desembaraçar a situação das cópias. Ela tinha certeza de que conseguiria uma resposta com o chaveiro. Ana se levantou cedo, o que não era de costume aos finais de semana e seguiu sua caminhada.
“Olha, Jerusa. Cecília acordada uma hora dessas, deve tá curiando a vida dos outros”, resmungava dona Maria, junto a sua amiga Marilene, ambas conversando na frente de casa.
“Bom dia, dona Maria, bom dia, dona Marilene”, com entusiasmo e demonstrando certa pressa, cumprimentou suas amigas. Mas um chamado interrompeu a caminhada de Ana. Ana se aproximou das duas, e dona Maria falou baixinho:
“Vem cá, Ana, já descobriu alguma coisa desse ingrediente? Ouvi dizer que Cabeluda tava em sua casa ontem.”
“Dona Maria, pois tô querendo descobrir”, respondeu Ana, sabendo que dona Maria não ouviu dizer, ela viu, pois estava na frente de casa quando recebeu as visitas “mas olhe, estou sabendo de umas coisas.”
As duas velhinhas olharam com extrema curiosidade para Ana, quase a agredindo para que contasse logo, para que fosse mais rápida do que sua fala poderia comportar.
“Mas quero que descubram para mim umas coisas, não é nada demais.”
“Pois fale logo, menina. Oxe, a gente sabe de tudo aqui em Tororó, o que você quiser, a gente puxa.”
Ana olhou para os lados da rua, criando um suspense para valorizar a sua fofoca.
“Lembra de Lisinha.”
“Lisinha de Cabeluda?” Responderam, tendo suas curiosidades ainda mais atiçadas.
“Pois tô achando que Lisinha queria era o macho de Cabeluda, por isso foi embora. Cabeluda chamou de invejosa.”
“Verdade, menina. O velho Bartô fazia sucesso, mas quem trancou ele foi Cabeluda.”
Ana acabou se perdendo nas trocas de informações. Quando deu por si, tinham se passado quase duas horas. Ela se despediu de suas amigas, e seguiu para a casa do chaveiro.
“Ana, minha filha. O que traz aqui, precisando de chaves?” questionou o homem, que estava na varanda de sua casa, prestes a acender um cigarro de fumo. De aparência desgastada, uma camisa de botão aberta, era o melhor chaveiro de Tororó, o único, mas muito bom.
“Bom dia, seu Toinho. Não vim lhe trazer trabalho não, só tirar umas perguntas.”
“Diga, minha jovem.”
“O senhor lembra se fez alguma cópia de chaves para Lúcia, a neta de cabeluda ou o seu marido?"
O homem acendeu o fumo, enquanto puxava na mente. Deu a primeira tragada.
“Menina, faz tempo que não vejo Lucia, se tivesse passado por aqui esses tempos eu iria me lembrar”. Enquanto respondia, um sorriso se estampava em seu rosto, o homem conhecia Ana e sabia de sua curiosidade. Ana pegou o celular, e abriu na foto do marido de Lúcia que Babalú havia enviado. O homem olhou, franzio os olhos.
“Te falar a verdade, por aqui mesmo não lembro”, assim que acabou de falar, deu outro trago no fumo.
Ana se surpreendeu com a resposta de Toinho. Alguém diferente chamaria atenção na cidade, e certamente estaria na lembrança do velho. A jovem retornou para casa pensativa.
“Conseguiu alguma coisa?”
“Não passaram por Toinho, João.”
“E agora, Ana, o que acha?”
“Preciso pensar”, respondeu Ana, que se levantou e foi para o quarto. Não demorou muito para que a jovem retornasse e perguntasse a João:
“João, por que a Nordestina está tão engarrafada mesmo? Não tem outro caminho?”
“Abriu uma casa de festas, mas segunda-feira vou por outro caminho. Passei por ela porque não costumava ficar assim.”
“João, amanhã vamos retornar à Feira, preciso confirmar uma coisa.”
O rapaz, sem entender o que se passava na mente de sua esposa, a questionou:
“Retornar vai nos ajudar como?”
“Talvez sejam apenas delírios de minha cabeça. Mas se a Nordestina estava engarrafada, e ele é de Feira de Santana, deve conhecer bem, por que não pegou outro caminho?”
“Mas como é que isso nos ajuda?”
“Tem algo faltando, o ingrediente. Mas se ele vai a essa casa de festas, e Lúcia sabe disso, talvez do mesmo jeito ela saiba que ele roubou e não fez nada.”
“Ana, pode existir mil motivos para ele passar pela Nordestina. Além de que não fazemos ideia de como conseguiram roubar.”
A jovem ficou calada, pensando sobre o argumento de João. Pegou o celular, mexeu por um tempo.
“João, amanhã vamos ficar de campana na casa de Lúcia.”
“Não é possível. Não acha que está indo longe demais com isso? Não acha que está ficando perigoso? Já fez a loucura de perseguir Lúcia, e no final das contas ser apenas dinheiro.”
“É justamente isso, não acha estranho ele querer dinheiro vivo? Por que dinheiro em espécie?”
“Vai saber, Ana. Talvez realmente ele esteja devendo a agiotas que só aceitam dinheiro em espécie, até por causa da Receita Federal.”
“Ou frequentando uma casa noturna e não queira deixar rastros.”
“Mas você está querendo descobrir se ele trai a esposa, ou onde está o ingrediente? Isso não nos ajuda.”
Capítulo 5: Nem tudo é o que parece.
Incomodada, se fechou e cruzou os braços. João conhecia sua esposa e sabia de sua determinação, não teve alternativa. No dia seguinte já estava preparado para uma nova viagem à Feira. Quando chegaram à rua de Lúcia, perceberam que o carro de seu marido ainda estava na garagem. João estacionou o carro a uma distância que pudessem observar. A espera durou por algumas horas. O casal conversou sobre diversos assuntos, até que João, incomodado e incrédulo tomou coragem e perguntou:
“Ana, por que você acha que justamente hoje ele iria a esse brega?”
A jovem mostrou a rede social da casa noturna, anunciando a estreia de uma nova dançarina.
“Se minha desconfiança estiver certa, ele não perderia uma estreia dessas.”
Era por volta das 20 horas quando o homem saiu de casa, a cidade era muito movimentada, por isso puderam seguir o carro sem dificuldades ou preocupações de levantar suspeitas. O caminho do homem se desenhou em direção à Nordestina, a rua tinha carros estacionados nos dois lados, e os carros que estavam passando procuravam por vagas. Lentamente, o trânsito andava, estavam logo atrás do marido de Lúcia e o congestionamento ocasionava paradas longas. João estava curioso, tentando entender o que estava ocorrendo. Os dois passaram em frente a uma boate, com uma fila de pessoas na entrada.
“É aí que vamos entrar”, disse Ana, ocasionando uma surpresa em seu marido.
“Meu Deus, Ana. Olha no que você está nos metendo”, respondeu João, de cara fechada, mas ele sabia que não tinha alternativa. Se não fosse, Ana iria sozinha.
Na rua ao lado conseguiram um local para estacionar. Algumas vagas pouco depois, o marido de Lúcia parou. Ana e João o seguiram, mas já era possível deduzir o local onde ele estaria indo. Na entrada era possível escutar a música de fundo abafada pela porta, o casal parou, esperou algumas pessoas entrarem na fila.
“120 reais só para entrar?” Ana tomou a frente com o cartão na mão e pagou. Pegou a mão do rapaz, que estava nitidamente desconfortável e o puxou para dentro. A iluminação do lugar era escura, com muitas mesas, e um palco com dançarinas. As mulheres iam às mesas dançar para os homens, que colocavam dinheiro encaixado nas suas pequenas peças de roupas. O marido de Lúcia era mais um deles.
Sérgio estava empolgado, com bebida na mesa, os garçons não deixavam sua bebida acabar, bem como não lhe faltava dinheiro para gastar com as dançarinas. O lugar estava lotado, e ao fundo havia um palco, onde as mulheres se apresentavam. Havia casais, solteiros em mesas, grupos de amigos. Em algumas mesas, quando chamavam pelos garçons, realizavam o pagamento em dinheiro ou cartão e eram acompanhados até uma porta. Era perceptível que havia lugares mais privados para quem quisesse. Em destaque, havia um cartaz, uma dançarina nova que seria a atração da noite.
“Entendi o porquê do dinheiro físico, Ana. Mas sobre o ingrediente, não temos nada ainda.”
“O ingrediente está aqui, João.”
“Como assim? Se Lúcia e Sérgio roubaram, não estariam usando no restaurante?”
Um locutor subiu ao palco, interrompendo a resposta de Ana. Ana bateu em João, mostra uma foto de Nathália, enviada por Babalú dias antes, mas sem que os dois precisassem confrontar as aparências, o locutor a chama pelo nome.
“Ana, como descobriu?”
Ana se aproximou de João.
“Não descobri como, mas foi ele. O ingrediente é muito famoso, ele conseguiria vender para qualquer estabelecimento da região, não tínhamos considerado essa possibilidade, acreditamos que estaria necessariamente com Lúcia.”
“Por isso perguntou da Nordestina.”
“Exato, João. Já informei tudo para cabeluda quando chegamos aqui. No momento em que ele entrou, tive certeza de que foi ele. Acha que devo contar do marido para Lúcia?”
“Acho que ela sabe, só não quer enxergar.”
A jovem estava pensativa, mexeu no celular e estava tomando a sua decisão de se retirar daquele local.
João confirmava as falas de sua esposa, com certo alívio pela resolução e o fim da necessidade de estarem naquele local. Ana levantou as mãos para pedir a conta ao garçom, mas logo observou o barman pedindo mais bebidas ao garçom responsável pelo atendimento da mesa deles.
“Não é hoje que vamos sair daqui”, resmungava João, incomodado com o local em que estavam e pela demora no atendimento “vou ao caixa para pagar logo, amor.”
João estava se levantando quando notou diversas ligações perdidas e mensagens chegando ao celular de Ana. Cecília abriu o áudio, era de Cabeluda, com dificuldade para escutar, colocou o celular no ouvido, mas a voz era de Babalú:
“Oi, Ana. Agradeço por tudo. Mas quando você nos disse que não era Lúcia e a situação do marido, viemos para Feira. Dona Cabeluda não falou nada com a neta, apenas pediu um prato à atendente. Falamos à atendente quem éramos, e pedimos que não falasse com Lúcia que estávamos ali, iríamos à cozinha para lhe fazer uma surpresa. Mas quando chegamos, Cabeluda notou Lúcia se benzendo, virada para uma bancada. Cabeluda mudou completamente, perguntou à Lúcia por que ela tinha feito aquilo. Lúcia negou, disse que não foi ela, desaguou em choro, mas Cabeluda foi até a bancada e abriu uma gaveta e lá estava o ingrediente. Lúcia ficou ajoelhada, chorando dizendo que este ingrediente foi dado pela bisavó, que não é o mesmo.”
João notou que Ana ficou pálida e chamou pelo seu nome. O jovem que estava saindo da mesa para pagar, mas se sentou.
“O que foi, amor?”
“Cabeluda achou o ingrediente no restaurante de Lúcia.”
João esmoreceu, recostou os cotovelos sobre a mesa e disse:
“acho que erramos feio”.
“Verdade, João.”
Os dois ficaram sem se falar, esperando que o garçom viesse atendê-los. Após quase meia hora da apresentação de Nathália, Ana observou André levantar a mão e apenas sinalizar com um positivo com a cabeça para um garçom. Nathália desceu do palco, foi até ele e os dois seguiram para essa porta.
O garçom responsável pelo atendimento deles, terminou de entregar coquetéis batidos ao barman. Quando finalmente o garçom chegou à mesa do casal, João suspirou em alívio. Pegou a carteira, e questionou:
“Foi apenas uma água, quanto ficou?”
“120 pela mesa, 15 da água”, respondeu o garçom, enquanto os olhos de João quase dobravam de tamanho pela surpresa.
“Vamos querer um quarto, então”, disse Ana, com um tom de voz mais altivo.
“Queremos?” questionou João a Ana, sem entender o que ela estava fazendo. Ela deu um pequeno chute no rapaz por baixo da mesa.
“Sim, queremos um quarto.”
“Vocês querem um, ou uma acompanhante?”
“O fetiche é só nós dois.” cochichou Ana para o garçom. O homem puxou uma máquina de cartão e informou que o pagamento era adiantado. João quase desmaiou ao ver o valor, mas Ana pegou o seu cartão e passou na máquina.
“Me sigam.”
Capítulo 6: Ana foi longe demais.
Os dois se levantaram, e foram caminhando em direção a uma porta, enquanto João olhava para Ana, indignado com a situação. Ao adentrar no local, se depararam com um grande corredor, com diversas portas, que pareciam ser quartos reservados. Logo à esquerda, uma porta dupla, que gerava uma grande movimentação de entrada e saída dos garçons em direção aos quartos. Além deles, outras pessoas estavam sendo conduzidas pelo local. Ao entrarem no quarto, a jovem percebeu João parado.
“Você ficou louca? O que vamos fazer aqui?” Falava o rapaz, andando de um lado para outro.
“Podíamos aproveitar.”
João parou, abriu um grande sorriso e respondeu.
“Verdade, amor?”
“Claro que não, João. Viemos aqui por um motivo.”
“Que motivo? O ingrediente Lúcia roubou. Não temos o que fazer aqui”, irritado, tentava encontrar sanidade na atitude de Ana.
“Vou apenas passar pela cozinha, tentar ver algo, se não der em nada, vamos embora.”
“Ficou louca?”
“João, ele nem pagou pela dançarina.”
“Sim, o que tem a ver?”
“Pelo amor de Deus, João. Eles já se conheciam, o homem abanou a cabeça e o garçom atendeu?”
João parou por um segundo, olhou para Ana.
“Entendi, os dois se conhecem. Agora vamos embora.”
“Lúcia estava implorando para sua vó, dizendo que foi a biza quem deu. E agora essa Nathália e Sérgio se conhecem?”
João continuou parado, olhando para Ana demonstrando indignação.
“João, foi Nathália quem tirou a cópia. Se Nathália e Sérgio se conhecem há tempos, quando Cabeluda deixou a chave com Lúcia e Sérgio, na sexta-feira, Sérgio deve ter passado a chave para Nathália tirar uma cópia. Por isso, Toinho não me disse nada, procuramos por gente de fora, mas Nathália é de Tororó.”
João paralisou, pensando sobre os fatos.
“Sérgio deve ter convencido Lúcia para ir ao show, para que não houvesse suspeita sobre eles. Lúcia não sabia de nada, ele é conhecido aqui, com certeza vendeu o ingrediente para esta casa.”
“Meu Deus, Ana. Pode ser, mas o que vamos fazer aqui?”
“Não vou me meter em problemas, apenas vou à cozinha tirar a minha dúvida.”
Ana abriu a porta do quarto, enquanto João suava frio e estava escorado atrás da porta à espera de sua esposa. Ana viu alguns casais entrando em outros quartos. Ela seguiu em direção à porta onde saiam os garçons, na qual estava escrito “somente entrada de funcionários”.
Ao abrir a porta, percebeu que tinha conexão com a cozinha por uma abertura que servia para despachar os pedidos.
A movimentação era tão intensa que ela conseguia passar despercebida. Ana se aproximou da cozinha e viu que havia uma senhora na terceira idade, mas muito bem arrumada. Cabelos loiros, batom vermelho, um vestido preto, mas sobreposto por um avental.
“O que está fazendo aqui?” Ana escutou uma voz masculina pesada e que demonstrava irritação. Um garçom que foi buscar um pedido, percebeu a presença atípica da moça e a questionou.
A jovem tomou um pequeno susto que tentou esconder. O seu coração disparou, trêmula, respondeu:
“Estava procurando o banheiro, e resolvi dar uma olhada na cozinha.”
“Um banheiro aqui dentro? Não conhece as regras da casa? Seguranças, chamem os seguranças.”
No mesmo instante, os funcionários da cozinha olharam para ver o que estava ocorrendo. Mas o garçom que havia atendido Ana e o marido interveio.
“São clientes, Marcio. Pagaram pelo quarto com banheiro no armário.”
“É isso, achei que não tinha banheiro e me perdi procurando.”
Incomodado, o homem olhou para Ana e a deixou ir.
“Me desculpe, senhora. Daremos um desconto no pagamento da conta.”
Ana olhou para trás e falou:
“Escuta aqui, nunca fui tão maltratada assim na minha vida. Vou falar com meu marido e sair agora desse lugar”, mas ao virar para expor sua indignação, os olhos de Ana se conectaram aos da senhora que estava na cozinha. E a velha estava se benzendo, virada para um balcão de alumínio, quando escutou a reclamação de Ana, que lhe chamou a atenção. Novamente os coração acelerou.
Meu Deus dos céus, é Lisinha, será que me reconheceu?
Ana se virou, cerrou os punhos, foi caminhando em direção à porta enquanto pegou o celular, digitou algo e bloqueou a tela, mas antes que abrisse a porta, escutou.
“Peguem essa desgraçada.”
Ana tentou correr, mas o garçom que havia a livrado, a alcançou. Ao gritar, a música alta, aliada aos gritos advindos dos quartos, fazia os gritos de Ana parecerem indiferentes. Os homens taparam a boca dela com um pano, e a arrastaram pelo corredor até a última porta. Dentro do quarto, amarraram-na em uma cadeira, até que a dona do local entrou.
“Ana Cecília, filha de Zé Rufino e de Ana Maria. Tirem esse pano da boca dela”, disse a senhora.
“Por acaso, minha jovem, acha que eu não reconheceria qualquer alma vivente de Tororó? Sempre soube que era entrona, desde pequena se metendo em conversas de adulto. Mas Cabeluda mandar uma mocinha atrás do ingrediente?”
O garçom mexeu na bolsa de Ana e pegou um de seus documentos.
“Donalisa, olha isso aqui.”
Ele mostrou o documento de identificação de Ana.
“Analista de TI do tribunal. Isso é ruim ou muito ruim, Diego?”
“Precisamos pensar, Donalisa. Ela não veio só, estava com um homem no quarto 16.”
“Acho que se sumirem aqui dentro, um brega será o último lugar que vão procurar por vocês.” Verbalizou a senhora, sinalizando com a cabeça para os seus capangas.
Ana observava cada detalhe do local, mas não via chances de conseguir fugir.
“Vão atrás do homem.”
“Quarto 16, Donalisa”, gritou o garçom que atendeu o casal. O homem pegou um pé de cabra, chamou outros e se direcionaram à porta.
Ana conseguiu retirar o pano da boca, movimentando a mandíbula. Mas quando percebeu que os homens estavam indo atrás de seu marido, lágrimas escorreram de seu rosto, seguidas de gritos:
“Não… Deixem ele em paz, ele não tem nada a ver com isso.”
Capítulo 7: João precisa ter coragem.
Minutos antes, João estranhou a demora. O rapaz foi até a cozinha, apenas abriu a porta e percebeu que Ana não estava ali. Foi ao salão, olhou rapidamente e voltou ao corredor. Havia diversas portas, João olhou para o final do corredor, com uma porta em destaque, para ter certeza de que Ana não poderia estar em nenhuma delas, saiu abrindo todas as portas. As portas que ele conseguia abrir, podia espiar o que estava dentro, nas que não obtinha êxito, batia com força. João se deparou com anões em uma apresentação teatral, e até mesmo com apresentações acrobáticas de posições que ele jamais imaginou ser possível.
Conforme João abria e batia nas portas, as deixando com uma pequena fresta aberta, os seus ocupantes percebiam e saiam desconfiados. Quando João finalmente chegou na última porta, se deparou com um quarto em que Ana estava amarrada em uma cadeira, a senhora segurando seu documento de identificação e um homem com um pé de cabra na mão.
Rapidamente João fechou a porta, segurando a maçaneta com força.
“Corre, João”, escutou um grito desesperado de Ana.
O corredor estava ficando cheio, pois os ocupantes dos quartos depois de se vestirem, haviam saído para entender quem tinha mexido nas portas.
“Quem abriu a porta do meu quarto, está aqui dentro, e filmaram todos vocês.” Gritou João no corredor, apontando para o quarto em que Ana estava e todos foram em direção à porta, irritados.
João saiu correndo, desnorteado, tentando pensar no que fazer para que pudesse livrar sua companheira. Ele parou, olhou para os lados, pegou uma garrafa de vinho, pensou em quebrá-la, mas quando viu um homem com um isqueiro na mão, correu e pediu o isqueiro.
Enquanto uma grande confusão acontecia entre os clientes e os funcionários, João entrou em um quarto, catou um punhado de roupas que estavam no chão e ateou fogo. O fogo não era suficiente para assustar, João continuou desesperado, pensando no que fazer, novamente pegou uma garrafa de bebida e pensou em partir para cima dos homens.
Mas um frasco com incenso chamou sua atenção. Ele pegou o recipiente e derramou no pequeno amontoado de roupas em chamas, levantando labaredas e enchendo o local de fumaça. Uma correria se iniciou no corredor, João entrou em outro quarto, pegou outro frasco de incenso e jogou novamente. Era tanta fumaça, que parecia que estava ocorrendo um grande incêndio.
João saiu correndo em direção ao local em que Ana estava, lutando contra a correria das pessoas fugindo do que parecia ser um grande incêndio. Ninguém havia ficado no quarto, João desamarrou Ana, pegou sua mão e saiu correndo. O corredor já estava vazio, mas antes que saíssem do corredor, Ana o segurou.
“Vem, João.”
“Para onde, Ana? Vamos embora.”
Ana correu em direção à cozinha, saiu abrindo as portas dos armários com toda a pressa.
“Me ajuda, João.”
“Pelo amor de Deus, Ana.” Desesperado, João começou a procurar pela caixa, até que Ana, ao jogar todas as panelas no chão, viu, junto com elas, a caixa de couro.
“Achei, vem, vem João.”
Com urgência, Ana arrebatou João e saíram correndo para fugir dali. Mas quando abriram a porta para retornar ao salão e tentar fugir, todos os funcionários estavam no salão. O punhado de roupas não estava mais em chamas e ao abrir a porta, chamaram toda a atenção para eles.
“Peguem aqueles desgraçados.”
Os funcionários puderam ver os dois, Ana puxou João em direção ao final do corredor.
“Para aonde vamos, Ana?”
“Vem, desgraçado.” Gritou a jovem, em desespero.
“Quebra a janela, João.”
Ao mesmo tempo, ela fechou a porta, girou a chave e colocou uma cadeira atrás da porta, apoiada na maçaneta. João pegou outra cadeira e com toda força arremessou a cadeira na janela, quebrando-a. Os tombos na porta se iniciaram, rapidamente ela seria arrombada. João pulou e ajudou Ana. O jovem pegou a cadeira e correu em direção ao muro do quintal.
“Sobe, Ana.”
Ana subiu, se pendurou no muro e João suspendeu seus pés para que ela conseguisse chegar ao topo do muro, onde ficou. A porta do quarto foi quebrada, João percebeu e se apressou ainda mais, ele arremessou a cadeira do outro lado do muro, correu, se pendurou e pulou para o outro lado. Assim que desceu, estendeu os braços para Ana, que também pulou, caindo nos braços de João.
“Ô Ana, não me meta mais nessas coisas.”
“Corre, João, corre”, gritava Ana após conseguir pular o muro.
Quando o garçom colocou parte do corpo no muro, João pegou a cadeira e arremessou no homem, fazendo-o cair. Os funcionários estavam dando a volta pela frente do estabelecimento. Ana e João saíram correndo. Mas dezenas de pessoas já os perseguiam. Garçons, dançarinas, seguranças, anões, todos estavam correndo atrás dos dois.
O casal estava ficando sem forças quando escutaram motos vindo atrás deles. Ana e João pararam no meio da rua e levantaram as mãos. Em segundos ficaram rodeados pelos funcionários de Donalisa. João sem saber o que fazer gritou:
“Tomem, peguem de volta o ingrediente. Nos deixem em paz.”
Mas Donalisa começou a rir.
“Acabaram com a noite do meu estabelecimento, nem consigo calcular o prejuízo, e acham que sairão ilesos?”
Donalisa olhou para o seu garçom com um pé de cabra
“Me dê, Diego.”
O homem prontamente atendeu. Donalisa iniciou o seu discurso:
“Na vida em que vivemos, precisamos aprender a nos defender desde cedo. Acham mesmo que serei roubada por uma rapariga que nem saiu das fraldas? Cabeluda vai pagar, roubou meu homem, mas agora vou roubar tudo dela.”
Donalisa estendeu a ferramenta para golpear Ana, mas antes que concretizasse um grito estridente foi escutado:
“Pare agora, Lisinha."
Era Cabeluda, junto com todo o pessoal de Tororó.
Capítulo : E agora Lisinha? A resolução.
O olhar de Donalisa estremeceu
“Cabeluda? Como chegou aqui?”
João olhou para Ana, sem entender como aquilo podia ser possível. Ana pegou em sua mão, o puxou se distanciando do povo de Donalisa, que estavam perplexos com a chegada do brega de Cabeluda.
“Mas, mas… Como, amor?” Questionou João.
Mas antes que Ana pudesse responder, com uma voz firme, Cabeluda falou:
“Bartolomeu nunca foi seu, ou de ninguém. Ele escolheu viver comigo, Lisinha.”
O rosto de Donalisa se enfureceu ainda mais.
“Donalisa, agora sou Donalisa. Lisinha morreu, você matou ela. Você o roubou de mim com esse ingrediente, tomou meu homem.”
“Nunca precisei roubar. Bartolomeu sempre esteve comigo. Mas você... você sim, invejosa. Quando a conheci, estava desesperada, não queria mais fazer programa. Lhe dei emprego decente, casa e comida. Mas como retribuiu? Colocando o nome de Lisinha para me afrontar.”
Cabeluda cuspiu no chão e continuou:
“Eu deveria ter a colocado para fora, mas ignorei, fui burra, boa demais.”
O povo de Lisinha esboçou querer partir para cima do brega de Cabeluda, mas no mesmo instante Lisinha gritou:
“Parem, estão com os ciganos, vai terminar em desgraça”.
Lisinha parecia ter entendido que não havia mais o que fazer.
“Mainha, vamos”, essa fala saiu da boca do marido de Lúcia.
“Nunca gostei de você, miserável. Só podia ser filho dela”, praguejou Cabeluda.
Sérgio pegou no braço de sua mãe dizendo:
“Vamos, pessoal. Isso não vai ficar assim”
Mas Donalisa conseguiu se desvencilhar de Sérgio, saiu correndo para cima de Ana e pulou para tentar pegar o ingrediente. As duas caíram e a caixa rolou para o lado. Após um forte tombo no chão, um som de vidro se quebrando pôde ser escutado. A caixa estava um pouco aberta, Ana correu e a fechou.
Os homens dos dois lados ameaçaram partir para cima uns para cimas dos outros. Mas todos do brega de Cabeluda ameaçaram puxar objetos, que poderiam ser armas. O que fez o pessoal de Lisinha se retrair.
Triste, Ana pegou a caixa e levantou.
“Desculpe, dona Cabeluda.”
Dona Cabeluda colocou a mão na caixa, que estava virada para ela, abriu uma pequena fresta e fechou os olhos.
“Deixa-a, minha filha.”
“Mas…”, tentou falar, logo sendo interrompida.
“Ana, pode deixar.”
Cabeluda falou com firmeza, demonstrando que, para ela, estava tudo bem. Ana colocou a caixa no chão e foi se retirando junto com o pessoal de Tororó. No mesmo instante, Lisinha correu para a caixa, abriu e gritou:
“Não… meu sucesso”, chorava copiosamente. Sérgio se aproximou, pegou os pedaços e começou a tentar juntar.
“Miserável, tudo isso é culpa sua. Viciado em putas, vivo pagando suas dívidas.”
“Mamãe, vou colar o cristal, vai funcionar”, desesperado, respondia com voz de choro enquanto catava cada pedaço quebrado.
Cabeluda se virou para o seu povo, percebeu o rosto de todos perplexos e os chamou de volta para Tororó.
Ao chegarem a Tororó, Cabeluda pediu que o casal fosse com eles ao Brega, que estaria fechado naquele dia. Os dois entraram no estabelecimento, foram levados para um salão à parte, com tons amadeirados, móveis em couro e muitos cristais. João carregava algumas dúvidas.
“Como chegaram a tempo?” Questionou João, e Babalú tratou de lhe responder.
“Ana me mandou uma mensagem dizendo que o ingrediente estava lá”, Ana interrompeu a fala de Babalú.
“Na cozinha deles, quando vi Lisinha se benzendo, virada para um balcão, tive certeza. Como estavam desconfiados de mim, peguei o celular, enviei a localização o mais rápido que pude, antes que me pegassem.”
Lúcia mostrou a mensagem de Ana:
Não foi Lúcia, o ingrediente está aqui, preciso de ajuda, socorro.
Foi somente o tempo de dona Cabeluda ligar para os ciganos mais próximos, e nos encontrarmos no brega de Lisinha.
Cabeluda estava de cabeça baixa e começou a falar:
“Eu desconfiei de minha neta, minha filha virou crente e se afastou de mim. Minha neta cresceu distante de mim. Hoje, quando comi em seu restaurante, comi a melhor moqueca de minha vida, igual à da minha vó, percebi que não era o ingrediente, mas sim os ensinamentos passados entre nossas gerações. Era a mão da minha mãe naquela comida. Infelizmente quando cheguei à cozinha e achei um ingrediente igual ao meu, uma tristeza inundou o meu coração e eu duvidei de minha neta. Aquilo não podia estar acontecendo comigo. Mas, quando Babalú me mostrou a mensagem de Ana, não tive dúvidas, minha neta não fez.”
Um silêncio havia tomado conta do lugar. Ana olhou para Cabeluda.
“Então a senhora não deixou o ingrediente com Lisinha apenas porque quebrou...”
“Sim, eu entendi que não era o ingrediente. Infelizmente perdi uma lembrança importante de minha mãe, um apoio de fé, mas lembrei que ainda podia visitar minha neta e compartilhar com ela a lembrança de sua bisavó.
Ana abraçou Cabeluda. Cabeluda sinalizou para uma de suas funcionárias trouxesse uma bandeja. Ao abrir, havia um jantar completo. Uma moqueca, ainda fervendo em uma panela de barro, era o centro, contornando havia arroz, feijão tropeiro, salada e pimenta.
“Que isso, dona Cabeluda. Não precisa disso tudo não”, disse Ana, impressionada com o banquete.
“Comam, meus jovens. Devem estar famintos.”
“Demais”, falou João, sem conseguir tirar os olhos do prato.
Mais pratos foram trazidos, os funcionários se juntaram e todos puderam comer. Ao finalizar o prato, Ana olhou para Cabeluda e falou:
“Que moqueca maravilhosa, a melhor que já comi em minha vida.”
Cabeluda pegou na mão de Ana e fez um gesto de confirmação com a cabeça. Em seguida ela entregou o envelope.
“Dona Cabeluda, não posso aceitar. Nem mesmo conseguimos trazer o seu ingrediente.”
“Gostou da comida?”
Ana olhou para João e abriu um sorriso.
“Tenho um óleo maravilhoso para vocês dois.”
Naquela noite, Ana Cecília recebeu seu primeiro pagamento como detetive. Ana conseguiu tirar diversas informações das profissionais daquele local: quem frequentava, quais homens ou mulheres casados, quais casais, quais religiosos. No final das contas, João teve que carregar Ana passando mal por ter comido demais e bêbada para casa, ela não é das mais comedidas nas festas.
Porém, quando Ana chegou em casa, viu que alguém tinha colocado uma carta por baixo de sua porta.
SANTO
Era a única coisa escrita na carta.
“O que acha, amor?” Questionou João.
“Que alguém tá querendo brincar comigo.”